LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 4
Cúmplice Perfeita
Era Sofia Ferrini, e ela não tinha avisado ninguém.
Pelo menos não a maioria das pessoas. Isso ficou claro quando o carro, um Alfa Romeo cinza de locadora que ela dirigia com a competência distraída de quem passou anos no trânsito de Milão e concluiu que excesso de atenção às regras é escolha pessoal, parou no pátio. Carlo saiu pela porta principal, viu a irmã e ficou com aquela cara de alívio e pânico leve: gostava de ver a irmã, só não tinha certeza de que a hora era boa.
Giulia apareceu à porta da cozinha trinta segundos depois, como se um sensor invisível a tivesse chamado. A expressão dela era outra: neutra por completo, daquela neutralidade que dá trabalho.
Eu estava à janela da biblioteca, a pasta de 1947 ainda aberta na mão, e tive a vantagem de ver a chegada de fora antes de ser apresentada.
Sofia tinha quarenta e dois anos e o rosto de quem passou vinte deles tomando decisões que custaram alguma coisa, e pagando sem fazer cena. Cabelo escuro e curto, roupa boa sem ostentação, a postura de quem projeta espaços para os outros viverem e aprendeu a ocupar bem o próprio.
Abraçou Carlo depressa. Cumprimentou Giulia com um ciao cordial e sem afeto. Tirou a mala do porta-malas sozinha.
Deixei a pasta na mesa e fui para o pátio.
* * *
— Signora Cavalcante — disse Carlo, no tom de quem apresenta pessoas que não deviam precisar de apresentação —, esta é minha irmã, Sofia.
— Sofia Ferrini. — Estendeu a mão com uma franqueza que dispensava o sorriso sem chegar a ser grosseira. — Carlo me disse que havia uma consultora na propriedade. Auditoria?
— Algo assim.
Ela me mediu um segundo com um olhar de arquiteta, espacial, como quem decide se uma coisa está no lugar certo.
— Entendo — disse, de um jeito que sugeria que entendia pela metade e tinha resolvido que a metade bastava por ora.
Giulia trouxe café para Sofia antes que alguém pedisse. Sofia agradeceu sem se virar inteira, pegou a xícara e perguntou:
— Papà está?
— No escritório — disse Carlo. — Ele não sabe que você vinha.
— Eu sei. — Um gole de café. — Preciso falar com ele. Pode avisar que eu cheguei?
Carlo foi. Giulia sumiu para onde quer que fosse quando não estava sendo útil num lugar, que provavelmente era outro lugar onde estava sendo útil.
Sofia e eu ficamos um momento no pátio.
— Quantos dias pretende ficar? — perguntou, sem hostilidade, como quem organiza informação.
— Ainda não sei. Depende do que eu encontrar.
— Hum. — Pousou a xícara vazia em cima da mala. — Esse tipo de trabalho costuma ter prazo.
— Costuma. Às vezes o prazo se ajusta. A senhora veio de Milão de carro?
— De avião até Florença. O carro é alugado.
Não houve mais conversa. Sofia pegou a mala e subiu a escada sem olhar os degraus.
* * *
O almoço foi daqueles em que muita coisa acontece embaixo de uma superfície parada.
Aldo desceu na hora, como sempre. Viu Sofia sentada e não parou nem apressou o passo. Chegou à cadeira, sentou e disse:
— Não avisou que vinha.
— Não avisei — concordou Sofia.
— Algum motivo ou foi impulso?
Sofia o olhou com a calma de quem passou anos aprendendo a não reagir ao tom dele.
— Um projeto foi cancelado. Fiquei com a semana livre. Vim ver como estão as coisas.
— As coisas estão como sempre — disse Aldo. — Bem.
Giulia pôs o pão na mesa. Carlo serviu a água. Matteo chegou três minutos atrasado, com terra nas mãos, e foi lavá-las antes de sentar, sem que ninguém comentasse.
Durante o almoço, Sofia perguntou sobre o vinhedo direto a Matteo, e não ao pai. Matteo respondeu. Aldo ouviu. Havia naquela geometria uma história de que eu não conhecia todos os capítulos, mas que estava ali: Sofia e Matteo tinham uma aliança informal, ou pelo menos um canal que não passava pelo pai.
— O telhado da ala norte — disse Sofia a certa altura, para Carlo — continua com o problema?
— Mandei consertar em maio.
— Vi uma mancha nova quando cheguei. Vou subir para olhar depois do almoço. — Virou-se para o pai. — Se ainda for nossa para consertar. Eu vi os papéis do grupo de Milão, papà. A ala norte inteira.
— Isso não é assunto para a mesa.
— A parte da mamma é nossa, papà. É assunto nosso.
— Não é assunto para a mesa.
— E a Rosa? Mora lá desde antes de eu nascer.
— A Rosa vai ser bem cuidada. — Aldo pegou o garfo. — Não vou repetir, Sofia.
Sofia dobrou o guardanapo e o pôs ao lado do prato, devagar demais. Os ombros de Aldo endureceram de leve, e reconheci ali uma irritação disciplinada: ele sabia que a filha tinha mais razão do que seria conveniente.
O rancor entre os dois fazia pouco barulho. Tinha sido construído com tempo e mantido com cuidado pelos dois lados, uma estrutura tão conhecida que eles já moravam nela sem pensar.
* * *
À tarde, enquanto Sofia subia ao telhado com a seriedade de quem foi treinada para ver o que as estruturas escondem, fui atrás de Matteo na adega.
Por dentro, a construção era mais comprida do que parecia do pátio: abóbada de pedra, fileiras de barris de carvalho encostados nas paredes e sobre cavaletes no meio, e um frio de caverna que o calor de fora não alcançava. Matteo conferia alguns barris batendo de leve na madeira com os nós dos dedos e escutando com uma atenção quase médica.
— Seu pai vem aqui toda noite? — perguntei, como se me informasse sobre a rotina da propriedade.
— Toda noite de que eu me lembro. — Bateu em outro barril. — Às vezes eu fico até as dez, as onze. Ele vem depois de mim.
— Sempre sozinho?
— Sempre.
— Você não acha isso meio solitário?
Matteo me olhou como se eu tivesse perguntado se a gravidade não era meio inconveniente.
— Papà sempre foi assim. A cantina é o lugar que é dele. Aqui ele não precisa de ninguém.
Na saída, ele passou a mão no ferrolho de ferro do lado de fora da porta, uma barra grossa, escura, com décadas de uso.
— Quem sai por último fecha — disse. — Quase sempre é ele.
Saí com cheiro de vinho e madeira nos pulmões e uma frase guardada: o lugar que é dele.
* * *
O jantar foi às oito, com Sofia e Nonna Rosa à mesa e uma cortesia de trégua que ninguém tinha assinado.
Às nove, Aldo parou no meio de uma frase sobre o preço das barricas. Ficou pálido de repente, de um cinza que a luz dos lustres não disfarçava, e apoiou a mão aberta na toalha, ao lado do prato, como quem procura a mesa para não sair do lugar. Tinha a testa molhada.
— Papà? — Carlo meio se levantou.
— É o calor. — Aldo afastou a mão do filho sem olhar para ela. — Senta.
Giulia já estava ao lado dele com um copo d'água. Perguntou baixinho se ele queria que ela chamasse o médico. Aldo bebeu metade do copo, respirou fundo duas vezes e disse que não. Sofia observava o pai do outro lado da mesa sem se mexer; Matteo tinha parado de comer.
Meia hora depois, com a cor um pouco de volta ao rosto, Aldo se levantou.
— Vou à cantina. Lá é fresco.
Carlo abriu a boca e fechou de novo. Ninguém foi atrás dele.
* * *
Naquela noite mandei ao cliente a última mensagem antes de aceitar que o silêncio era a resposta. Não veio nada.
Deitei na cama do quarto três e fiz as contas que faço quando me falta informação. Eu sabia bastante sobre a família: tensões por dentro e estrutura que funcionava, um patriarca dominante, um filho mais velho que se curvava, um caçula especializado e contido, uma filha com uma briga antiga com o pai e outra nova, sobre a ala norte, uma nora eficiente a ponto de desaparecer e uma ama de leite que guardava coisas num idioma inesperado. Não sabia quem era o meu alvo, por que o cliente tinha sumido nem o que exatamente eu devia verificar. O que desse para descobrir sozinha estaria nos papéis da biblioteca e na correspondência de Aldo. Todo o resto, que era quase tudo que importava, dependia de alguém me contar.
A atitude sensata seria ir embora: devolver a parte proporcional do adiantamento, encerrar o contrato por falta de condições imputável ao cliente e pegar o primeiro voo para São Paulo.
Só que eu tinha vindo àquela casa encontrar alguém, e ir embora sem saber quem era me parecia uma derrota que eu não estava disposta a aceitar. Reconheci isso com alguma irritação, deitada no escuro, e não mudei de ideia.
Levantei para fechar a janela e fiquei. Do outro lado do pátio, a fresta embaixo da porta da adega brilhava como na noite anterior.
Às onze e quarenta, a linha de luz se apagou.