
Cúmplice Perfeita
thriller
Beatriz Cavalcante foi delegada da Polícia Civil de São Paulo durante sete anos. Saiu depois de um processo administrativo que terminou arquivado, sem condenação e sem pedido de desculpas. Hoje faz investigação empresarial num escritório da Rua Augusta, e por…
CAPÍTULO 1
A Fachada Mais Bonita do Mundo
Larguei o Fiat Panda no acostamento da estrada provincial às duas e cinco da tarde de uma quinta-feira, oito de agosto, e fiquei olhando pelo para-brisa por um tempo que pareceria estranho a qualquer pessoa que passasse. Não passou ninguém. A estrada estava vazia desde Greve in Chianti, e os ciprestes ladeavam o caminho de terra que subia até os portões da propriedade como uma escolta contratada para vigiar, e não para ser simpática.
O GPS da locadora ainda achava que eu estava num campo de girassóis. A Tenuta Ferrini, lá em cima, achava que eu estava atrasada; tinha a cara de lugar que faz a gente se sentir em falta só por chegar de carro alugado.
Era agosto. O calor da Toscana não tem a umidade de São Paulo nem o cheiro de asfalto e escapamento. Tem cheiro de terra seca, de lavanda e de alguma coisa fermentada que em italiano deve ter um nome bonito e que eu descreveria como uva quente tentando virar outra coisa. O sol batia nas pedras cor de mel do casarão como se soubesse que estava sendo fotografado.
Peguei o celular. A mensagem do cliente continuava lá, a última antes do silêncio que começaria no dia seguinte e que naquele momento ainda não era problema de ninguém:
"Tenuta Ferrini, Greve in Chianti. Fale com o Sr. Aldo Ferrini. Diga que veio para a auditoria. Ele estará esperando."
Auditoria é a palavra mais neutra que existe quando não se quer dizer o que se está fazendo.
O que eu estava fazendo, segundo o briefing: verificar a família Ferrini e a identidade de um possível herdeiro. Herdeiro de quem, com que nome, morando onde, o cliente não tinha dito. "Um parente que pode ter direitos sobre a propriedade" foi a formulação que anotei durante a videochamada, com a câmera do outro lado desligada e uma voz modificada o bastante para incomodar e não o bastante para parecer profissional. O contrato tinha vindo por um intermediário em Milão. Eu aceito casos assim quando o adiantamento cai antes do embarque, e tinha caído: dois mil e quatrocentos euros, metade do combinado, na conta que eu mantinha num banco de Florença havia três anos.
Engatei a primeira e subi a estradinha.
Os portões estavam abertos. Isso sempre quer dizer alguma coisa, e eu nunca sei direito o quê.
* * *
A villa era o que se espera de uma vinícola toscana fundada no século XVI por uma família com o bom senso de parecer ter fundado a civilização junto: pedra gasta, janelas altas com venezianas verde-floresta, uma glicínia subindo pela fachada com a autoridade de moradora mais antiga que qualquer Ferrini. Em volta, o borgo, um punhado de casas de pedra que por séculos tinha abrigado trabalhadores rurais e agora abrigava os funcionários fixos da tenuta. Certas coisas mudam de nome e continuam fazendo o mesmo serviço.
No pátio interno, um homem esperava.
Carlo Ferrini tinha quarenta e oito anos, pelo que eu havia pesquisado, e parecia mais. O corpo não entregava nada: bem-posto, cabelo escuro com grisalho nas têmporas, camisa de linho passada apesar do calor. Era o jeito de ficar de pé que envelhecia o homem, como se tivesse medo de que o chão cedesse caso ele se mexesse depressa.
— Signora Cavalcante. — Pronunciou à italiana, com o e final aberto: Cavalcànte. Não corrigi. — Bem-vinda à Tenuta Ferrini. Fez boa viagem?
— Tranquila. A estrada de Greve é bonita.
— Sempre foi. — Sorriu com a metade de baixo do rosto; os olhos ficaram de plantão. — Minha esposa preparou café, se a senhora quiser, antes de se instalar.
Quis. Foi a primeira coisa realmente boa desde o aeroporto.
* * *
A cozinha era grande a ponto de parecer escolha arquitetônica e não necessidade. Pé-direito alto, vigas de madeira escura, uma mesa comprida de pedra que já devia ter servido mais refeições que muito restaurante de São Paulo. Potes de conserva nas prateleiras, um maço de alecrim num jarro de barro.
Giulia Ferrini tirava uma bandeja do forno quando entrei. Quarenta e cinco anos, olhos verde-escuros, o cabelo castanho numa trança lateral feita para não atrapalhar, um avental de trabalho por cima de um suéter fino cor de areia, de mangas arregaçadas, que naquele calor me pareceu coisa de quem sente frio onde os outros não sentem. Tinha o tipo de rosto que a gente chama de agradável e depois descobre que não consegue descrever com mais nenhuma palavra.
— Signora, seja bem-vinda. — Pôs a bandeja na mesa, cantuccini, os biscoitos de amêndoa que os toscanos comem em quantidades que me pareceram otimistas, e foi direto à cafeteira. — Fez boa viagem?
— Boa, obrigada. — Segunda vez que eu respondia aquilo. Se precisasse, ia contar.
— Carlo me disse que a senhora veio para uma auditoria. — Falou num tom neutro, servindo o café com a firmeza de um gesto repetido dez mil vezes. — A tenuta já foi auditada algumas vezes nos últimos anos. Exportação, certificações. Estamos acostumados.
— Esse tipo de processo é sempre um pouco diferente — eu disse, do jeito mais vago que consegui.
Aprendi isso na polícia: diga pouco e as pessoas preenchem o vazio com o que já acham que é verdade. Giulia assentiu como quem recebeu uma informação útil. Carlo ficou de pé perto da janela, olhando o pátio.
O café era excelente.
* * *
Depois do café, Carlo me mostrou o essencial com a pressa educada de um anfitrião cumprindo pauta: a biblioteca no térreo, a sala de jantar, a escada para os quartos. No pátio, apontou uma construção baixa de pedra, separada da casa, com uma porta de madeira pesada e um ferrolho de ferro por fora.
— A cantina — disse. — Papà vai lá toda noite ver os barris. Nunca deixou ninguém fazer isso no lugar dele.
Meu quarto era o de número três, na ala leste. A janela dava para o pátio e, de viés, para a porta da adega; além dela, os telhados do borgo. Carlo deixou a mala no chão, disse que o pai me receberia às cinco e desceu.
* * *
Aldo Ferrini me recebeu no escritório às cinco em ponto.
O escritório ficava no segundo andar, com vista para os vinhedos. A adega, que eles chamavam de cantina e que eu continuava chamando de adega por causa do cheiro que subia pela janela aberta, ficava embaixo e à direita. Mais longe, as fileiras de videiras, verde-escuras e ordenadas, plantadas para durar.
Aldo tinha setenta e dois anos e a postura de um homem que nunca achou necessário ser gentil quando podia ser exato. Sentado atrás de uma escrivaninha que devia estar naquela posição desde antes do meu nascimento, me examinou com a cara de um fiscal de alfândega que desconfia de tudo e não tem prova de nada.
— Signora Cavalcànte. — Também com o e aberto. Talvez meu sobrenome fosse assim na boca de qualquer italiano. — Meu filho me avisou da sua chegada.
— O senhor estava me esperando, imagino.
— Estava. — Não acrescentou nada.
Expliquei a missão nos termos que o cliente tinha pedido: levantamento genealógico, conferência de documentos para fins de herança eventual, procedimento comum quando a estrutura de uma empresa familiar fica complicada. Falei uns três minutos, dentro de uma conversa que não chegou a quinze, com a convicção que o papel pedia.
Aldo ouviu de braços cruzados, com a cara de quem escuta a segunda versão de uma história que já conhece.
— Encontre o que precisar encontrar — disse, quando terminei. — A tenuta está à sua disposição. Carlo mostra onde fica cada coisa. — Abriu uma gaveta da escrivaninha, e o gesto encerrou a reunião. — Se precisar de mim, fale com Carlo.
Saí do escritório com a certeza confortável de ter sido recebida como uma inconveniência necessária. Pelo menos era uma posição clara.
* * *
Da janela do quarto eu via, além do pátio, as casas do borgo. Algumas já tinham luz acesa, embora fosse cedo. Uma mulher idosa sentada numa cadeira do lado de fora de uma delas levantava os olhos para a villa em intervalos regulares, como quem faz aquilo várias vezes por dia há muitos anos.
Desfiz a mala pelo método que criei em quartos de hotel e casas alheias: documentos de trabalho na gaveta da mesa, roupa no armário por tipo, necessaire no banheiro em ordem de uso. Quando não se conhece um lugar, arrumar o que se trouxe é o único controle disponível.
Troquei a camiseta suada por uma preta limpa e pendurei a jaqueta verde-oliva, a de bolsos demais, atrás da porta. Fiz o inventário que faço antes de qualquer trabalho de campo, porque a primeira coisa que as pessoas leem é a gente. Trinta e três anos, que uma semana de sol de agosto ia adiantar. Cabelo castanho-escuro que ondula por conta própria e que eu prendo num coque baixo porque coque baixo não pede opinião de ninguém. Pele morena, que em São Paulo passa despercebida e na Toscana ia virar assunto. Sobrancelhas grossas que nunca tirei, por falta de argumento. Olhos escuros com a expressão que um processo administrativo deixa e que desisti de corrigir. Um metro e sessenta e oito, ombros de quem usou colete por sete anos de delegacia, e o jeans com a camiseta que sobraram como uniforme quando devolvi a carteira funcional.
Sentei na beira da cama e abri o arquivo no tablet.
O cliente tinha me passado o nome da família, o nome da propriedade, a localização e a instrução de verificar a família e "um possível herdeiro cujos documentos precisam ser confirmados antes de qualquer reivindicação formal". Nenhum nome, nenhuma descrição, nenhuma pista de quem, dentro ou fora daquela casa, era o meu alvo.
Eu não sabia quem estava procurando.
Era um problema que eu devia ter resolvido antes de embarcar em Guarulhos na véspera. Mas o adiantamento tinha caído, e eu tinha suposto que as informações viriam depois. Não vieram. E ali estava eu, num quarto de pedra na Toscana, com a janela aberta deixando entrar cheiro de lavanda e de vinho e o barulho distante dos grilos, depois de ter dito a um patriarca de setenta e dois anos que ia encontrar o que precisasse encontrar sem ter ideia do que era.
Mandei ao cliente uma mensagem curta de chegada e pedi, pela segunda vez, o nome da pessoa.
Lá fora, o último sol da tarde deixava as pedras da villa cor de ouro velho e acendia de laranja a porta da adega. Fiquei olhando o ferrolho de ferro até a luz sair dele.
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