
Pedra Bruta
melodrama
Isabela Reis tem 28 anos e nunca segurou uma joia de verdade. Cresceu em Diamantina, entre o varal de Dona Tereza, a lavadeira que a encontrou numa cesta à porta de casa, e o balcão da padaria onde trabalha desde…
CAPÍTULO 1
A Carta
O cheiro de alfazema já não conseguia esconder o cheiro da doença.
Isabela Reis torceu o pano úmido sobre a bacia de alumínio e passou-o devagar pela testa de Dona Tereza. A pele da velha lavadeira tinha ficado fina e quebradiça como papel esquecido ao sol, quase transparente nos pontos onde as veias azuladas corriam sem rumo. O quarto cheirava a cânfora, a lençol trocado e àquela doçura enjoativa que Isabela aprendera a reconhecer nas últimas semanas, o hálito de uma doença que vinha comendo o corpo por dentro, um corpo que já tinha carregado trouxas de roupa morro acima sem parar para respirar.
Do lado de fora, Diamantina ardia sob o sol de fevereiro. O calor subia pelas paredes caiadas da casinha na Rua do Bonfim, entrava pelas frestas da janela de madeira e deixava sobre tudo uma poeira fina e dourada, a mesma que cobria os paralelepípedos, os telhados de barro e as torres da Igreja do Carmo lá embaixo. O sino da igreja de Padre Tomás bateu três horas, e Isabela contou as batidas sem querer, como contava as respirações da mãe.
— Isa...
A voz de Dona Tereza era um fio de linha branca esticado a ponto de arrebentar.
Isabela inclinou-se, e o cabelo castanho ondulado escapou do coque frouxo e roçou o rosto da mãe.
— Estou aqui, mãe. Não saí.
Os olhos de Dona Tereza, que um dia tinham sido castanhos vivos, cor de café forte, estavam embaçados como vidro de janela em manhã fria. Procuraram os de Isabela e, quando os encontraram, alguma coisa se acendeu lá dentro, o último lampejo de lucidez numa escuridão que avançava desde o diagnóstico, desde o dia em que o médico do posto disse a palavra que Isabela ainda não conseguia pronunciar em voz alta.
— Seus olhos... — murmurou Dona Tereza, e um sorriso torto apareceu nos lábios rachados. — Sempre foram bonitos demais pra essa casa.
Isabela sentiu a garganta fechar. As mãos dela, calejadas de amassar pão desde os quinze anos na padaria do Seu Geraldo, de pegar no forno às cinco da manhã e aguentar o balcão até o meio-dia, apertaram os dedos magros da mãe como se pudessem segurar ali, naquele quarto pequeno, a vida que ia embora.
— São iguais aos seus — mentiu, porque era o que sempre dizia.
Dona Tereza fechou os olhos. Uma lágrima escorreu pela têmpora e sumiu no travesseiro.
— Não são, minha filha. Nunca foram.
— Que conversa é essa, mãe?
Dona Tereza mexeu os lábios. Isabela chegou o ouvido bem perto e só pegou o fim da frase, alguma coisa sobre o padre e sobre depois. Depois a respiração ficou curta e regular, e a velha adormeceu com a mão presa na dela. Isabela ficou olhando aquele peito subir e descer, tão raso que às vezes ela precisava encostar a palma para ter certeza, e decidiu que a pergunta podia esperar a noite, quando a mãe acordasse com mais força para falar.
* * *
O relógio de parede, um cuco alemão que Dona Tereza ganhara de uma patroa havia trinta anos e que nunca mais cantou direito, marcava seis e quarenta e dois quando a respiração parou.
Isabela não percebeu de imediato. Tinha cochilado na cadeira de palha, o corpo dobrado de lado, a mão ainda presa à de Dona Tereza. Acordou com a quietude. A casa tinha os seus barulhos de sempre, os grilos, o vento nas telhas, o varal rangendo no quintal, e todos continuavam lá; faltava só o chiado curto do peito da mãe, e essa falta enchia o quarto inteiro.
Abriu os olhos. A mão de Dona Tereza estava fria.
Durante um tempo que ela nunca soube medir, Isabela não sentiu coisa nenhuma. Ficou olhando o rosto da mãe como quem espera que alguém termine uma frase. Depois a dor chegou do jeito que chegam as enchentes nos vales de Minas, de repente e sem aviso, levando tudo o que encontra pela frente.
O grito saiu de um lugar que ela não conhecia em si mesma.
Jogou-se sobre o corpo, abraçou-o, chamou o nome da mãe, sacudiu-a de leve, como se o desespero tivesse força para desfazer o que estava feito. As lágrimas molharam o rosto de Dona Tereza, que parecia mais moço agora, com uma paz que a vida nunca lhe dera.
— Volta, mãe. Por favor. Agora não.
Dona Tereza não voltou. A mulher que lavara roupa de meia Diamantina por mais de quarenta anos, que criara sozinha uma menina, que nunca reclamara das costas nem das mãos rachadas de sabão e que cantava moda de viola enquanto estendia lençol branco no varal como quem arma as velas de um barco, foi embora quieta, do jeito que tinha vivido.
* * *
Padre Tomás chegou quando o céu já estava roxo. Isabela ouviu os passos lentos na calçada e abriu a porta antes que ele batesse. O pároco de setenta e cinco anos entrou curvado dentro da batina, com os olhos molhados antes de ver o corpo.
— Ela esperou você dormir — disse, pousando a mão no ombro de Isabela. — Pra não te dar esse peso.
Isabela não respondeu. Estava de pé no meio da sala, os olhos verdes inchados, os braços cruzados sobre o peito como se precisasse segurar as costelas no lugar. O padre foi até o quarto, rezou, fez o sinal da cruz e murmurou palavras em latim que ela não entendeu nem quis entender, porque nenhuma oração ia devolver à casa o cheiro de sabão em barra e água sanitária que queria dizer Dona Tereza chegando do serviço.
Quando ele voltou, sentou-se à mesa da cozinha e aceitou o café que Isabela passou sem pensar no que fazia. As mãos dela tremiam, e o café derramou na toalha de plástico florido.
— Padre, ela disse uma coisa estranha hoje. Sobre os meus olhos. Que nunca foram iguais aos dela.
O rosto de Padre Tomás mudou. Foi pouco, um tremor no lábio de baixo, os olhos fugindo para a janela, mas Isabela conhecia aquele homem desde menina, conhecia cada vinco dele e cada suspiro que ele dava antes de uma notícia ruim.
— O que o senhor sabe, padre?
Ele demorou. Bebeu o café e pôs a xícara na mesa com um cuidado exagerado.
— A Tereza me pediu pra guardar uma coisa, faz muitos anos. Disse que, quando chegasse a hora, eu ia saber.
— Que coisa?
— Uma carta.
Padre Tomás tirou do bolso da batina um envelope pardo, amarelado nas bordas, fechado com uma fita adesiva que já tinha perdido a cola. Na frente, com a letra grande e custosa de quem aprendeu a escrever tarde, estava escrito: "Pra Isa. Depois."
— Leia sozinha — disse ele, levantando-se. — Depois venha me procurar. Eu aviso a funerária e volto de manhã cedo.
Saiu. A porta rangeu e a casa ficou quieta de novo.
* * *
Isabela sentou-se no chão da sala, encostada na parede, com o envelope no colo. A lâmpada piscava. Uma mariposa batia no vidro da janela, querendo entrar.
Abriu o envelope. A letra era de Dona Tereza, a mesma das listas de compras pregadas na geladeira e dos bilhetes que ela deixava na mesa quando saía de madrugada para pegar roupa nas casas. Cada palavra tinha sido desenhada devagar, com força, como quem escreve pouco e por isso escreve para sempre.
"Minha Isa,"
"Se você está lendo isso é porque eu já fui. E se eu já fui não tem mais razão pra guardar segredo."
"Você não é minha filha de sangue."
Isabela parou de respirar. Leu a linha de novo, e uma terceira vez, como se a repetição pudesse mudar a letra de lugar.
"Numa noite de março de 1998 eu acordei com um choro. Era madrugada, fazia aquele frio de Diamantina que entra nos osso. Abri a porta e achei você no degrau, enrolada num pano de seda branca, tão bonita que parecia boneca de loja. Mas chorava de fome, e fome eu conheço."
"Peguei você no colo e nessa hora eu já sabia que não ia soltar nunca mais."
"No meio dos pano tinha um colar de esmeralda. Esmeralda de verdade, Isa, quem nasce aqui sabe. Nunca mostrei pra ninguém, só pro Padre Tomás. Fiquei com medo. Guardei o colar debaixo do assoalho do quarto, na tábua solta perto da janela. Está lá até hoje. A seda eu dei pro padre guardar, porque em casa de lavadeira pano não dura."
"Nunca soube quem te deixou. Nunca apareceu ninguém. Registrei você como minha filha no cartório e o Padre Tomás me ajudou. Ele sabe de tudo que eu sei."
"Você vai ficar com raiva. Vai achar que eu menti a vida inteira, e eu menti. Mas cada vez que eu dizia minha filha eu acreditava. Você é minha filha, sim. De sangue não. De tudo o mais, é."
"Esse colar é seu. Faça dele o que quiser. Só me promete uma coisa: não tenha raiva de quem te deixou naquela porta. Às vezes largar é tudo que uma mãe consegue fazer."
"Eu te amo desde a primeira noite."
"Tereza."
O papel escorregou dos dedos de Isabela. As lágrimas tinham parado em algum ponto da leitura, e no lugar delas ficou uma dormência pior que qualquer dor. Olhava a parede descascada à frente e não via nada. Havia a vida de antes daquela folha e a vida de depois, e ela não sabia atravessar de uma para a outra.
Levantou-se devagar, com as pernas bambas, e foi até o quarto. Passou pela cama com um cuidado de igreja, sem olhar o rosto da mãe, e ajoelhou-se perto da janela. Correu os dedos pelo assoalho gasto até achar a tábua solta, a que rangia toda manhã quando ela pisava e que Dona Tereza vivia dizendo que ia pregar um dia.
Puxou a tábua. No vão escuro entre o chão e a terra, embrulhado num pedaço de flanela cinza, estava o colar.
Tirou-o com as duas mãos e desembrulhou a flanela. Quando a luz fraca bateu nas pedras, as paredes do quarto se tingiram de verde.
Eram cinco esmeraldas em forma de gota, do tamanho de grãos de feijão, presas em ouro branco com uma delicadeza que Isabela nunca tinha visto nem nas vitrines dos ourives da Rua Direita, onde parava às vezes na volta da padaria. O colar pesava na palma mais do que devia. Cada pedra pegava a luz da lâmpada e a jogava de volta nas paredes, no teto, no lençol da cama.
Ergueu-o até a altura do rosto, e as esmeraldas ficaram diante dos seus olhos, verde contra verde. Os olhos que Dona Tereza elogiava sem nunca explicar, que não combinavam com a casa de reboco nem com o varal carregado de roupa dos outros, combinavam com aquilo. A ironia era tão cruel que quase a fez rir.
Apertou o colar contra o peito. O ouro estava frio.
A mariposa encontrou a fresta da janela da sala e entrou; Isabela ouviu o bater miúdo das asas contra a lâmpada, lá fora do quarto. O sino da igreja bateu oito horas. Ela embrulhou o colar de novo na flanela, voltou para a cadeira de palha ao lado da cama e pegou a mão fria de Dona Tereza entre as suas, com o embrulho no colo, e ficou ali até o dia clarear.
CAPÍTULOS
