CAPÍTULO 2Gratuito
A Arte de Sentar à Mesa
O jantar na Tenuta Ferrini era às oito, horário que os italianos acham normal e que meu estômago, depois de sete anos de delegacia e três de consultoria em São Paulo, onde se janta entre as seis e meia e as sete quando se janta, achou um desafio.
Fiquei com fome. Resolvi com os cantuccini que Giulia tinha deixado no quarto enquanto eu estava com Aldo, junto de um bilhete à mão, em italiano formal, que traduzi de cabeça como "caso a senhora queira algo antes do jantar". É o tipo de previsão que faz quem é bom em antecipar a necessidade dos outros. Anotei. Ainda não sabia se importava.
A sala de jantar seguia a escala do resto da villa: grande o bastante para lembrar que tinha sido feita para reuniões maiores do que aquela. Mesa comprida de madeira escura, seis cadeiras ocupadas, lustres que deviam ter tido velas antes de ter lâmpadas. Nas paredes, retratos que reconheci como de família pela semelhança com os rostos à mesa; o queixo quadrado dos Ferrini se repetia como um carimbo.
Aldo sentava à cabeceira, o que não surpreendeu ninguém, muito menos a mim.
* * *
Meu método em jantares de trabalho, que aprendi na polícia e refinei por conta própria, é falar pouco, comer devagar e reparar em quem olha para quem quando acha que ninguém está olhando.
Naquela mesa, a hierarquia apareceu antes da primeira palavra. Aldo servia o vinho a si mesmo e passava a garrafa a Carlo, que passava a Giulia, que passava a mim. Matteo se servia sozinho. Sofia, a filha, morava em Milão e só chegaria no dia seguinte, sem avisar ninguém; naquela noite, a cadeira dela nem estava posta.
À minha esquerda sentava uma senhora que eu tinha cruzado no corredor antes do jantar. Pequena, cabelo branco preso num coque que devia estar no mesmo lugar desde 1970, cardigã de lã em pleno agosto, mãos manchadas de sol e cheias de anéis que já não saíam dos dedos. Todos a chamavam de Nonna Rosa. Carlo, que percebeu meu olhar, me explicou em voz baixa que ela não era avó de ninguém ali: tinha chegado à casa em 1976 como ama de leite dele, ficara depois que ele cresceu e agora, aos oitenta anos, morava na ala norte com uma cuidadora. Rosa parecia habitar uma conversa interior bem mais interessante do que qualquer coisa que acontecia em volta.
Carlo comentou algo sobre a colheita. Aldo respondeu num italiano rápido demais para eu acompanhar inteiro, mas o tom era o de quem corrige uma conta errada com uma paciência de limite visível. Carlo assentiu duas vezes, a segunda com o cuidado de quem não concorda mas já sabe que discordar não adianta.
— Signora Cavalcante — disse Giulia, virando-se para mim com um sorriso de anfitriã de verdade —, o senhor Aldo quer saber se a senhora prefere começar amanhã pelos documentos históricos ou por uma visita à cantina.
Olhei para Aldo. Ele olhava o vinho no copo com a cara de quem não tinha feito a pergunta mas estava disposto a ouvir a resposta.
— Pelos documentos — respondi. — Prefiro ter o contexto antes de ver a operação.
Aldo tomou um gole. Podia ser aprovação. Podia ser sede.
* * *
Matteo Ferrini tinha trinta e sete anos e a economia de gestos de quem passa o dia trabalhando com o corpo e não gasta energia com movimento inútil. Sentava à minha direita, e nas duas primeiras horas de jantar aprendi três coisas sobre ele: comia com método, respondia pergunta direta com resposta direta e não puxou assunto nenhuma vez.
Quando Giulia sugeriu que eu talvez quisesse ver os vinhedos de manhã, antes do calor, foi Matteo quem falou, sem tirar os olhos do prato:
— Posso mostrar às sete, se a senhora quiser.
— Às sete está ótimo.
Ele fez que sim e voltou para a carne.
Nonna Rosa disse alguma coisa em italiano que não entendi toda, mas que tinha a palavra straniera no meio. Estrangeira. Do outro lado da mesa, Giulia respondeu baixinho, com a suavidade de quem tem prática em mudar o rumo de uma conversa. Rosa pensou naquilo um instante e voltou ao macarrão.
Carlo quis saber do Brasil. Se eu era de São Paulo, se lá fazia calor, se eu conhecia a Amazônia. As perguntas de sempre de europeu que quer mostrar que sabe que o Brasil é maior que o Rio de Janeiro. Dei as respostas de sempre, as que dou quando estou observando outra coisa e não quero me distrair.
O que eu observava era que ninguém, em momento nenhum, perguntou o que eu estava fazendo ali de verdade.
* * *
Isso é mais raro do que parece.
Trabalho com famílias que guardam segredos; é, no fundo, o meu ramo. Quando alguém de fora chega a uma casa com uma missão vaga, quem mora nela costuma fazer uma de duas coisas: pergunta sem parar o que a pessoa veio fazer, ou finge desinteresse com tanto empenho que o empenho aparece.
Naquela mesa não houve nem uma coisa nem outra. A falta de curiosidade era completa e tranquila, como se eu fosse um serviço contratado sobre o qual as perguntas relevantes já tivessem sido feitas por alguém, em outro momento.
Ou alguém ali sabia exatamente o que eu tinha vindo fazer, e os outros não perguntavam porque não sabiam que havia o que perguntar.
Comi o risoto. Estava muito bom, e isso também anotei, porque sou honesta sobre o que é bom quando é bom.
* * *
Às dez e meia, Aldo se levantou sem cerimônia. Boa noite foi toda a despedida. Carlo se levantou junto, como se um fio curto ligasse os dois. Giulia começou a recolher os pratos com o gesto automático de quem já fez aquilo vezes demais para precisar pensar.
Nonna Rosa ficou olhando para a parede por um momento e depois falou, em português claro e sem sotaque. Quase deixei cair o copo.
— Você é mais jovem do que eu esperava.
Olhei para ela. Pela primeira vez na noite, estava inteira ali, me olhando de volta.
— Esperava alguém mais velho para esse tipo de trabalho — continuou, em português. Onde tinha aprendido, eu não fazia ideia. — Mas talvez mais jovem seja melhor. Os velhos daqui já viram coisa demais. Não enxergam mais o que está na frente.
— Nonna — disse Giulia, em italiano, com doçura —, está na hora.
Uma mulher de uns cinquenta anos, de jaleco claro, tinha aparecido à porta da sala; depois eu saberia que se chamava Patrizia e cuidava de Rosa. Rosa me olhou mais um segundo, com aquele olhar que às vezes os muito velhos têm, sem ameaça e sem gentileza, só direto. Depois se levantou apoiada na bengala e no braço de Patrizia e saiu.
Fiquei na mesa com Matteo, que terminava o café, e com Giulia, que tirava a mesa. Matteo se levantou logo depois, com um boa noite breve e funcional. Giulia me ofereceu mais café; recusei, já era tarde para o meu sistema nervoso. Ela saiu pela porta da cozinha com uma bandeja de pratos, apagando a luz da copa com o cotovelo.
* * *
À meia-noite eu estava na janela aberta do quarto.
O ar tinha esfriado e trazia o cheiro do campo toscano à noite: terra, mato e a fermentação leve que vinha da adega. A lua estava alta e cheia o bastante para eu distinguir as fileiras dos vinhedos lá longe, alinhadas como uma escrita que eu não sabia ler.
Na adega havia luz. A construção não tinha janelas; era uma fresta embaixo da porta de madeira pesada, uma linha dourada no escuro, a mesma porta que eu tinha visto do escritório de Aldo e que Carlo me apontara à tarde. "Papà vai lá toda noite ver os barris." Nunca tinha deixado a cantina com ninguém.
Fiquei olhando pelo menos quarenta minutos. A luz continuava acesa quando desisti e fui tentar dormir.
Provavelmente era Aldo Ferrini conferindo os barris, como fazia toda noite havia décadas. Deitei com a janela aberta, ouvindo os grilos, e não consegui tirar da cabeça a linha dourada embaixo da porta.
