
Noites Cariocas
Suspense Romântico
Júlia Tavares é a repórter mais incômoda da Folha Carioca. Numa festa na orla de Copacabana, ela conhece Rodrigo Sampaio, o "Lobo": o homem que lava o dinheiro e resolve os problemas do irmão, o senador Marcelo Sampaio, favorito para…
CAPÍTULO 1
A Cidade de Vidro
Júlia Tavares entrou no Beach Club Copacabana pela doca de carga, atrás de dois rapazes do bufê que empurravam um carrinho de bandejas cobertas com filme plástico. No pescoço levava uma credencial que dizia "Assessoria de Imprensa - Staff", feita na véspera por um contato da Lapa que atendia pelo nome de "Mago dos Pixels". O segurança da porta de serviço olhou para o crachá, depois para o carrinho, e acenou para os três sem se levantar da cadeira de plástico.
Lá fora, aquela sexta-feira de julho fingia que o inverno não existia. Fazia trinta e um graus às nove da noite, a umidade passava de oitenta por cento e o cheiro de maresia da Avenida Atlântica chegava misturado ao de lixo esquentado no meio-fio. Era o terceiro dia seguido de calor fora de época, e os jornais já falavam em recorde para o mês. Do lado de dentro, o ar-condicionado segurava o salão em dezoito graus, e a elite carioca podia desfilar linho e seda sem suar.
O evento era o lançamento "não oficial" da pré-candidatura do senador Marcelo Sampaio à prefeitura do Rio. O convite falava apenas numa "Noite de Gala da Fundação Sampaio", mas ninguém ali tinha ido por causa da fundação. Numa festa beneficente, no Rio, sempre havia um balcão de negócios armado em algum canto do salão.
O tema era "Ouro e Branco", e a alta sociedade tinha obedecido à risca. Mulheres de rosto recém-esticado exibiam joias que pagariam uma escola inteira na Baixada Fluminense. Homens de charuto na mão e relógio suíço no pulso riam alto e acertavam licitações entre um gole e outro de Blue Label.
Júlia vestia preto. Um vestido de corte simples, comprado numa liquidação, que lhe caía bem o bastante para não chamar atenção e era discreto o bastante para que ela passasse por parte da decoração. Tinha prendido o cabelo castanho num rabo baixo, sem enfeite, do jeito que as moças da assessoria costumavam usar.
Com uma taça de água com gás na mão, para ter o que fazer com os dedos, ela circulou pelo salão. Os olhos verdes, treinados por dez anos de reportagem investigativa na Folha Carioca, passavam pela festa e paravam nos detalhes. O secretário de Segurança Pública cochichava com um bicheiro conhecido no canto do bar. A mulher do governador aceitava, de uma joalheria investigada por lavagem de dinheiro, um colar de diamantes "emprestado" para a noite. Ninguém parecia constrangido. Aquela gente fazia na frente de todo mundo o que Júlia passava meses tentando provar no papel.
O alvo principal estava no centro do salão, debaixo de um lustre de cristal do tamanho de um carro popular.
Marcelo Sampaio, o "Golden Boy", tinha quarenta e dois anos e o rosto de quem nasceu para ser fotografado. Bronzeado, dentes brancos demais, o cabelo grisalho nas têmporas dando a ele um ar de autoridade que parecia ensaiado no espelho. Senador desde 2019, agora queria a cidade inteira. Ria, tocava o ombro de um empreiteiro, e as pessoas em volta se inclinavam na direção dele como plantas atrás de sol.
Júlia sentiu o estômago revirar. Sabia o que havia por trás daquele sorriso: as planilhas que tinha visto de relance, os boatos sobre creches fantasmas na Zona Oeste, o dinheiro da merenda escolar que agora pagava o champanhe dos garçons.
Deu um passo à frente e tateou a caneta dentro da clutch. A caneta era um gravador digital, e ela precisava de uma frase, de um deslize, de qualquer coisa que ligasse Marcelo ao esquema.
Antes de chegar ao círculo de luz do candidato, parou. Teve a sensação de estar sendo observada, e não pelos seguranças.
Olhou para cima.
No mezanino, longe dos holofotes, um homem estava apoiado no guarda-corpo de vidro. Rodrigo Sampaio, o irmão mais novo, a ovelha negra da família, o homem que as colunas sociais chamavam de "o Lobo", apelido que ele nunca tinha se dado ao trabalho de desmentir.
Rodrigo não sorria e não vestia branco. Usava terno preto sob medida, sem gravata, a camisa aberta no colarinho. Segurava um copo baixo de uísque que mal tocava. Os olhos escuros percorriam o salão com o tédio de quem conhecia cada convidado e sabia quanto cada um custava.
Diziam muita coisa sobre ele. Que era o operador financeiro da família, o homem que mexia no dinheiro para que as mãos de Marcelo continuassem limpas, que assinava pelas empresas em que ninguém mais queria pôr o nome. Diziam também, mais baixo, que ele cuidava dos cassinos clandestinos da cidade e negociava com as milícias, mas disso ninguém tinha prova, e Júlia tinha aprendido a separar boato de documento.
Se Marcelo era a fachada, Rodrigo era a estrutura. Quem quisesse derrubar o prédio não perdia tempo com a pintura.
Ela respirou fundo, alisou o vestido e foi até a escada em espiral. Subir era uma imprudência, e Júlia Tavares nunca tinha sido conhecida pela prudência.
No mezanino, o som da festa chegava abafado, como se viesse de outro prédio. Rodrigo não se virou quando ela parou a um metro dele. Continuou olhando para o irmão.
— A vista é melhor daqui de cima? — perguntou Júlia.
Rodrigo levou o copo à boca e bebeu devagar. Pelo cheiro, Júlia percebeu que era água com gás. O copo de uísque era disfarce, e o Lobo estava sóbrio.
— A vista é a mesma — disse ele. A voz era grave, um pouco rouca. — Muda o cheiro. Aqui em cima cheira menos a hipocrisia e mais a ar-condicionado.
Só então virou o rosto para ela.
Júlia já tinha visto fotos, mas de perto era outra coisa. Uma cicatriz fina cortava a sobrancelha esquerda, uma linha clara na pele morena. Os olhos eram inteligentes e cansados, e não havia neles calor nenhum.
— Você não é convidada — disse ele, sem acusação, como quem lê a previsão do tempo.
— Sou imprensa.
— Você é Júlia Tavares, repórter investigativa da Folha Carioca. A mulher que derrubou o secretário de Transportes mês passado com aquela série sobre a máfia dos ônibus. Eu leio a sua coluna. É bem escrita, só tem adjetivo demais para o meu gosto.
— Fico lisonjeada. O Lobo sabe ler. Achei que você só soubesse contar dinheiro e quebrar pernas.
Rodrigo sorriu com o canto da boca. O sorriso não chegou aos olhos, mas mudou o rosto inteiro, e Júlia desconfiou de si mesma por ter reparado.
— Sei fazer muita coisa, senhorita Tavares. Inclusive farejar problema. E você cheira a problema. O perfume é barato, mas a intenção é cara. O que você quer?
— O perfume é o que o meu salário paga — respondeu ela. — A intenção sai de graça. Eu quero a verdade.
— A verdade sai caro no Rio de Janeiro. Costuma custar uma vida.
— Então eu pago. Tenho fontes, Rodrigo. Fontes que dizem que a Fundação Sampaio é uma lavanderia. Que o dinheiro das creches está indo para contas no exterior para bancar a campanha do Marcelo.
Ele soltou uma risada curta e seca.
— E você acha que vai encontrar prova numa festa? Que vai gravar o Marcelo confessando crime entre um canapé de salmão e um aperto de mão? Você é ingênua ou só gosta de risco?
— Eu acho que onde tem fumaça tem fogo. E você está sempre perto do extintor. É você quem apaga os incêndios dele.
Rodrigo girou o corpo e ficou de frente para ela, perto demais, de propósito. Júlia sentiu o cheiro dele, sândalo e tabaco frio, e se obrigou a não recuar.
— Um conselho de amigo, Júlia. O Marcelo não é o secretário de Transportes. Não é um burocrata gordo que cai com uma manchete de domingo. Ele tem gente em todo lugar que você imaginar, e em alguns que você nem imagina. Se você cutucar o Marcelo com essa caneta, ele não vai rosnar. Vai te engolir, e não sobra nem o osso para contar a história.
— Isso é uma ameaça? — A voz dela tremeu, só um pouco.
— É uma consultoria gratuita. Vai embora. Volta para a sua redação abafada e escreve sobre buraco de rua, sobre carnaval, sobre o Fluminense. Deixa a família Sampaio em paz.
— E se eu não deixar?
Por um segundo a frieza dele escorregou. Júlia viu cansaço naqueles olhos escuros, o peso de carregar nas costas o mundo do irmão, e alguma coisa parecida com um homem trancado numa jaula que ele mesmo tinha ajudado a construir.
— Então espero que você tenha um bom plano funerário — disse ele, baixo.
Deu as costas a ela com a mesma brusquidão com que tinha começado a conversa e desceu a escada. A multidão de ouro e branco abriu passagem sem que ele precisasse pedir. Rodrigo chegou ao lado de Marcelo e disse alguma coisa no ouvido do irmão. Marcelo ergueu os olhos para o mezanino.
Não havia nada de dourado naquele olhar. Júlia sentiu um arrepio subir pela espinha e apertou a clutch contra o corpo. Não tinha conseguido a gravação. Tinha conseguido outra coisa: a certeza de que os dois estavam com medo. Ninguém manda o irmão ameaçar uma repórter no meio da própria festa por causa de uma história sem fundamento.
Ela deu meia-volta e desceu pela escada dos fundos. Atravessou a cozinha entre panelas fumegantes e garçons apressados, passou pelo segurança que continuava na cadeira de plástico e só voltou a respirar direito quando a porta de serviço bateu atrás dela e o calor úmido de Copacabana grudou de novo o vestido na pele.
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