CAPÍTULO 2Gratuito
O Colar
O caixão era de pinho barato, desses em que os pregos já saem enferrujados antes de encontrar a terra. Isabela não tirou os olhos daquela madeira clara enquanto dois homens da funerária o carregavam pelos caminhos tortos do cemitério atrás da Igreja do Carmo, e pensou que Dona Tereza merecia pelo menos cedro. Cedro cheirava bem e durava. Pinho apodrecia depressa, e a ideia de que alguma coisa tocasse o corpo da mãe antes da hora era insuportável.
Era domingo, primeiro de março, e o sol castigava as lápides como se ainda fosse fevereiro. O calor seco subia do chão de terra batida, e a blusa preta grudava nas costas de Isabela. Havia pouca gente: Dona Lourdes, a vizinha de parede, que levava bolo de fubá nas tardes de domingo; Seu Geraldo, o dono da padaria, de chapéu na mão e camisa abotoada até o pescoço; a moça da farmácia, cujo nome Isabela nunca guardava; duas freguesas antigas de Dona Tereza. Gente simples, que sabia o peso de um caixão de pinho.
Padre Tomás estava de pé junto à cova, o livro de orações tremendo nas mãos. Já tinha enterrado mais gente do que batizado, e isso aparecia no jeito como dizia cada palavra, sem solenidade, com o cansaço de quem sabe que oração nenhuma devolve o que a terra leva.
— Que a luz perpétua brilhe sobre ela — disse, a voz rouca. — Tereza foi mulher de mão aberta e coração largo. Criou sozinha uma filha que não nasceu do ventre dela, mas nasceu da vontade.
Isabela sentiu o rosto esquentar. Aquilo ela sabia desde sexta à noite, sentada no chão da sala com a carta no colo, e tinha passado dois dias sem conseguir repetir nem para si mesma. Agora o padre dizia em voz alta, diante de Dona Lourdes e de Seu Geraldo, como quem lê um aviso na missa. Viu a vizinha virar a cabeça para ela, surpresa, e baixou os olhos para a terra. Sentia menos raiva do padre do que vergonha: era a última a saber de si mesma, e todo mundo ali tinha ouvido junto com ela.
O caixão desceu. A primeira pá de terra bateu na madeira com um som oco que Isabela sabia que ia escutar por muito tempo, toda vez que fechasse os olhos no escuro. Dona Lourdes segurou o braço dela e falou de Deus e de força, mas as palavras não chegaram. Isabela estava de volta no quarto, na sexta-feira, ajoelhada perto da janela com a tábua solta na mão e a mãe deitada na cama atrás dela, o relógio cuco marcando uma hora que já não servia para nada.
* * *
A casa estava vazia de um jeito que doía nos objetos. O avental pendurado atrás da porta, o pote de café na prateleira, as chinelas de dedo ao pé da cama, ainda com a forma dos pés inchados de Dona Tereza. Isabela parou no meio da sala, as mãos apertadas contra as coxas, e teve a impressão de que a casa inteira a empurrava para fora.
Tirou a carta do bolso da saia. Tinha lido tantas vezes desde a sexta que a dobra já começava a rasgar. Não precisava mais abrir. Sabia de cor a linha que mais doía, "Você não é minha filha de sangue", e a que vinha logo depois dela, lá embaixo, "Você é minha filha, sim", e passava os dias indo de uma para a outra como quem atravessa uma pinguela.
Foi até o quarto e pegou o embrulho de flanela na gaveta da cômoda, onde o tinha escondido na manhã seguinte, antes de a funerária chegar. Desembrulhou o colar em cima da colcha. À luz do dia as esmeraldas eram de um verde mais fundo do que na noite da lâmpada, um verde de água parada em poço de mata. Cinco pedras, ouro branco. O fecho era um trabalho miúdo, de mão paciente, que ela não saberia descrever para ninguém.
Aquilo valia mais do que a casa. Mais do que tudo o que Dona Tereza ganhou lavando roupa a vida inteira, e mais do que doze anos de padaria, de forno às cinco da manhã e balcão até o meio-dia.
Quem embrulha uma recém-nascida em seda e esconde esmeraldas no meio dos panos? Alguém com dinheiro, que queria a criança longe mas não queria que ela sumisse de todo. Alguém que deixou uma assinatura sem nome.
Levou o colar até o espelho rachado da sala. A rachadura cortava o vidro de alto a baixo e dividia o rosto dela em dois, uma Isabela de cada lado. De um, a filha de Dona Tereza, a menina que cresceu com cheiro de sabão e de fermento e conhecia as ruas de pedra de Diamantina como as linhas da própria mão. Do outro, uma desconhecida que tinha chegado embrulhada em seda de gente rica. Encostou o colar no pescoço. As pedras gelaram a pele morena, e o verde delas encontrou o verde dos olhos no espelho.
Isabela tirou o colar depressa, como quem tira a mão do fogo, e o embrulhou de novo.
* * *
Padre Tomás abriu a porta da sacristia devagar, como fazia tudo.
— Eu sabia que você vinha — disse.
— Desculpa o jeito que eu fiquei no cemitério.
— Quem tem que pedir desculpa sou eu. Falei o que não era hora de falar. — Ele indicou a cadeira de palha ao lado da mesa das hóstias. — Senta.
A sacristia cheirava a incenso velho e madeira encerada. Isabela sentou-se com as costas retas e o embrulho de flanela no colo.
— A Tereza me procurou na mesma semana em que te achou — contou o padre, de olhos baixos. — Estava apavorada. Queria te registrar como filha, mas tinha medo de que viessem te buscar. Esperamos. Ninguém veio. Ela foi ao cartório dizendo que tinha tido você em casa, sozinha, e eu fui de testemunha. Isabela Reis, filha de Tereza Maria dos Santos Reis. Deus que me perdoe, mas eu assinaria de novo.
— E o colar?
— Eu disse pra ela vender. — Ele ergueu os olhos. — Disse que aquilo era coisa de gente rica, e que gente rica não larga filho na porta dos outros por bondade. Ela não quis. Dizia que as pedras tinham a cor dos seus olhos e que um dia você ia precisar delas mais do que ela.
Isabela apertou o embrulho. As bordas das pedras marcaram a palma através da flanela, e a dor foi quase bem-vinda, porque era uma coisa concreta num dia em que tudo parecia feito de fumaça.
— A carta fala de uma seda.
Padre Tomás ficou quieto por tanto tempo que ela achou que ele não ia responder. Depois levantou-se, abriu o armário dos paramentos e tirou da prateleira de cima uma caixa de papelão de sapato, amarrada com barbante. Pôs a caixa na mesa e desfez o nó com os dedos nodosos.
Dentro havia um pano dobrado, de um branco que o tempo tinha puxado para o creme. Seda, pesada e macia, de um tipo que Isabela só tinha visto em vestido de noiva na vitrine. O padre desdobrou o pano com cuidado e apontou um dos cantos. Ali, bordadas em linha branca sobre o branco, quase invisíveis se não se inclinasse o tecido contra a janela, havia duas letras entrelaçadas.
— A.M. — leu Isabela, em voz baixa.
— A Tereza não sabia o que era, e eu também não sei — disse o padre. Fez o sinal da cruz, como se pedisse proteção para o que vinha a seguir. — Menina, quem te deixou naquela porta não era qualquer pessoa. Seda, esmeralda, letra bordada. Isso é língua de gente poderosa. E gente poderosa não abandona filho. Esconde.
— O senhor sabe mais alguma coisa.
Não foi uma pergunta, e ele não fingiu que era. Ficou olhando as próprias mãos em cima da mesa.
— Tudo o que a Tereza me contou, eu te contei. — A voz dele falhou. — O resto que um padre ouve não é dele pra contar, Isabela. Não me pede isso hoje.
Ela quis pedir. Viu a tosse subir no peito magro do velho, viu o tremor das mãos, e não pediu. Dobrou a seda em volta do colar e guardou os dois juntos dentro da flanela.
* * *
Nos três dias seguintes, Isabela desmontou a vida peça por peça.
Vendeu a máquina de costura para Dona Lourdes, a Singer antiga em que Dona Tereza fazia bainha para fora nas madrugadas, por centavos que somavam a diferença entre comer e não comer. Dona Lourdes pagou duzentos reais e chorou ao levar a máquina embora. Vendeu o ferro de passar, as panelas, o ventilador que só girava para um lado, os lençóis remendados. Seu Geraldo fez o acerto da padaria e pôs na mão dela um envelope com mais do que devia, e quando ela quis devolver a diferença ele fingiu que não ouviu.
— A vaga é sua quando você voltar — disse ele, sem olhar para ela. — Pão não muda.
Na quarta à noite, contou o dinheiro em cima da mesa da cozinha. Setecentos e quarenta reais. Dava para a passagem até São Paulo e para uns dias de pensão e comida, se comesse pouco. Se comesse como sempre comeu, pensou, e o pensamento veio com uma ponta de humor amargo que era a primeira coisa parecida com riso desde a sexta-feira.
Na última noite, sentou-se na soleira da porta da casa vazia e olhou a Rua do Bonfim descendo em curva até a praça. A cidade dormia debaixo de um céu tão estrelado que parecia baixo demais. As casas coloridas, azul, amarelo, rosa desbotado, eram recortes escuros contra a noite.
Tinha escolhido o que levar. A mochila de lona, a única coisa que não vendeu, com duas mudas de roupa, a carta, uma escova de dentes e um retrato em preto e branco de Dona Tereza moça, encostada num tanque. E a caixinha de madeira onde a mãe guardava linha e agulha, que Isabela esvaziou, forrou com a flanela e onde acomodou o colar enrolado na seda. A caixinha cabia no fundo da mochila, embaixo das roupas.
Tirou o colar mais uma vez e o segurou contra a luz do poste. As pedras pegaram o amarelo da lâmpada e o devolveram verde. A.M. Duas letras numa seda que passou vinte e oito anos numa caixa de sapato, no armário de uma sacristia, sem que ninguém soubesse ler o que diziam. Podiam ser o começo de um nome ou de nada.
As mãos dela, ásperas de massa e de forno, pareciam erradas segurando aquilo. Mas os olhos eram do mesmo verde.
Amanhã, o ônibus das seis para São Paulo. Doze horas de estrada. Isabela não conhecia São Paulo nem ninguém lá. Não tinha endereço, nem emprego, nem uma ideia clara do que ia fazer quando descesse do ônibus. Tinha um colar, duas letras bordadas e a certeza de que alguém, em algum lugar, sabia quem ela era.
Guardou o colar na caixinha, fechou a tampa e empurrou a caixinha para o fundo da mochila. Depois trancou a porta da casa pela última vez e foi dormir no colchão de Dona Lourdes, que tinha insistido.
